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Narrativas de Mulheres Migrantes na Cidade do Porto

Ação inserida no projeto Mediadores Municipais e Interculturais, promovido pela Câmara do Porto, que integra o longo trabalho da PELE de mapeamento, aproximação e diálogo permanente com diferentes grupos na cidade.

O Mapa Delas foi criado no âmbito do projeto de Mediadores Municipais e Interculturais, promovido pela Câmara do Porto e integra o longo trabalho da PELE de mapeamento, aproximação e diálogo permanente com diferentes grupos na cidade.

As histórias foram partilhadas por mulheres migrantes que vivem ou trabalham no Porto, através de uma open call realizada em Outubro de 2025. Foram privilegiadas narrativas de mulheres de diferentes geografias, contextos, idades e que, de alguma maneira, têm uma atuação em contexto coletivo.

Este material, no entanto, não é representativo da diversidade cultural da cidade do Porto, existem muitas histórias não visibilizadas e que poderiam fazer parte deste projeto. Contudo, este objeto artístico procura ser um pequeno dispositivo de valorização dos saberes, identidades e celebração da pluralidade de existências na sociedade. O Mapa Delas pretende sensibilizar, aproximar, dar a conhecer percursos humanos e fortalecer redes de afeto, apoio e solidariedade entre comunidades.

Jamila Rezayee
20/02/2002
Ghazni, Afeganistão

Sou uma mulher Hazara, do Afeganistão. A minha história começa na casa onde cresci, entre o cheiro do pão quente feito pela minha mãe e a voz suave do meu pai a recitar versos sagrados. Os meus sonhos sempre foram maiores do que o mundo à minha volta parecia permitir. Cada vez que me diziam “tu não podes”, uma pequena luz dentro de mim tornava-se mais forte. Eu queria estudar, escrever, ser mulher e ser livre para pensar.
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A universidade foi uma porta aberta para o futuro, mas atrás dela também existiam medos e limites. Muitas vezes, entre silêncios e olhares pesados, dizia baixinho a mim mesma: “Jamila, tem calma. Este é o teu caminho. Segue, mesmo que às vezes tenhas de caminhar sozinha.” Esses diálogos silenciosos comigo mesma davam-me força para continuar.
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Aqui em Portugal, comecei a sentir o que significa viver com mais liberdade como mulher. Encontrei um ambiente onde há mais oportunidades para estudar, crescer e construir o meu futuro. 
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Quando caminho pela cidade, vejo mulheres em todos os lugares — nos parques, cinemas, concertos, festivais culturais, universidades e locais de trabalho — mulheres que estão presentes com tranquilidade, confiança e alegria. Ver essas imagens desperta em mim esperança e possibilidades.
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No Afeganistão, muitas meninas enfrentam grandes restrições e nem sempre podem continuar os estudos ou viver livremente na sociedade. Cresci num contexto onde ser menina significava aprender cedo o peso de certos limites. Mas foi precisamente nesses desafios que minha força interior se formou.
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Por causa da língua, acompanho o meu pai e a minha mãe em muitas situações do dia a dia — no hospital, nas compras e nos serviços públicos. Aqui, os papéis mudaram um pouco, e sou eu que os ajudo a orientar-se num país novo e numa língua que ainda estão a aprender. O esforço deles para se manterem fortes e não nos preocupar, todos os dias, ensina-me o verdadeiro significado de dignidade, responsabilidade e amor. A vida aqui é um recomeço, e tento, sempre que posso, dar-lhes força, carinho e esperança.
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Com o tempo, percebi que a pátria não é apenas um pedaço de terra. Às vezes, a pátria vive no coração das pessoas que amamos — no olhar do meu pai e da minha mãe que sempre me apoiam, na presença dos meus irmãos aqui em Portugal, e na oração do meu esposo que me acompanha de longe, e na fé silenciosa de uma mulher que nunca desiste.
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Hoje, sou uma mulher que se ergueu entre a dor. Criei raízes no meio do exílio, com lágrimas e sorrisos, com medo e coragem, com paciência e resiliência. Aprendi que cada mulher, mesmo longe da sua terra, pode construir um lar dentro de si — um lar feito de voz, de amor e de força.

Julieta Fuxi Alexandre Vaz
06/06/1993
Cacuso, Malanje, Angola

O meu nome foi-me dado pelo meu pai. O nome “Fuxi”, na minha língua materna, significa “fonte” ou “poder”, e, quando não é “nome de família”, é o nome dado às pessoas que nasceram depois de gémeos na cultura ambundo. Nasci em Malanje, uma província do centro-norte de Angola. Sempre tive uma vida muito itinerante, não só porque nasci num contexto de guerra e fuga, mas porque desde muito cedo acreditei que a realização dos meus sonhos estava além do lugar onde nasci. O meu pai foi morto durante a guerra. Eu não sei bem de onde sou, sempre me vi como cidadã do mundo.
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O Porto ganha muito por ter pessoas que, por virem de contextos diferentes, são capazes de ler a realidade para além do que a maioria conhece. Eu vim de um lugar marginalizado e estou a trabalhar com pessoas marginalizadas, que me permite atuar a partir do meu espaço de fala e me dá alguma vantagem em relação às pessoas que trabalham comigo. Se eu estiver a falar de/com/sobre imigrantes,  consigo compreender as suas necessidades e sentimento que eles expressam, devido à condição de imigrante. Com pessoas africanas, tenho a sensibilidade cultural para interagir ou intervir sem o receio do preconceito ou do racismo mas também sem a colonialidade que permeia muitas vezes os discursos e práticas sociais.. Essa sensibilidade estende-se a outros grupos étnico-culturais, como por exemplo a etnia cigana. Ou seja, por conseguir posicionar-me em diferentes lugares de fala, acrescento uma mais-valia à intervenção comunitária, contribuindo para respostas mais ajustadas, inclusivas e eficazes que resultem em maior justiça e coesão social.
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Gosto das pessoas do Porto porque falam demais. No Porto, é como se estivesse em casa porque no meu país toda a gente fala com toda a gente. Quando me perco e me aproximo de alguém para me ajudarem ou orientar-me, se podem, acompanham-me até ao sítio onde tenho de ir, o meu povo também é assim.
Do Porto, além das pessoas, também sou muito fã da francesinha, tanto que faz parte do meu ritual alimentar mensal. Se fico um mês sem comer, é como se faltasse alguma coisa.
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Quero ser ministra da Ação Social, Família e Igualdade de Género no meu país. É por isso que estou numa equipa de intervenção comunitária e estou a fazer o meu doutoramento. Quero trabalhar em Ação Social porque venho de um país muito rico, mas o nível de desigualdades e vulnerabilidade social é muito grande.

Claire Sivier
07/06/1985
Londres, Inglaterra

Sou mulher, amiga, irmã, filha. Uma pessoa Negra, uma pessoa birracial, uma pessoa queer. Sou uma multiplicidade. Aqui sou imigrante, mas venho de uma segunda geração de imigrantes (pai jamaicano e mãe francesa) em Londres. Sinto que fui moldada pelo ambiente onde cresci, com amigos da Índia, de Marrocos, da Nigéria... Todo o meu bairro era assim. Os meus amigos eram todos filhos de imigrantes. Enquanto jovem, e antes de conhecer a palavra, acho que sempre entendi a interseccionalidade da minha experiência, inclusive com outras pessoas negras. Entendi que sou uma pessoa Negra, mas que também tenho pele clara, por isso a minha experiência é diferente da de outros imigrantes. Entendi, e continuo a entender, a posição privilegiada que tenho em comparação com pessoas negras de pele escura; vi essa diferença de experiência claramente em familiares próximos e, aqui em Portugal, vejo também a posição privilegiada de possuir um passaporte britânico.
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A "Caminhada das Mulheres Negras" surgiu de uma necessidade pessoal. É um grupo informal de mulheres negras e pessoas negras não-binárias que se reúnem para desfrutar da natureza, dos espaços públicos — lugares onde os nossos corpos normalmente não são esperados — e acontece geralmente uma vez por mês, além de organizarmos retiros e outras atividades ao ar livre. Nasci num ambiente com muitas pessoas negras e, quando me mudei para o Porto, senti-me sozinha e fiquei chocada porque não via pessoas negras com regularidade. Mas nós estamos aqui, somos muitos; na altura, a minha experiência era muito moldada e relativa ao sítio de onde vinha em Londres.
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Gosto de quando caminhamos perto da água. Perto do rio, perto do mar, porque é algo muito simbólico. Muitos de nós somos povos atlânticos, e a água é um ponto de ligação entre nós, pois somos de diferentes nacionalidades no nosso grupo. Quando vamos caminhar perto do rio nas Fontainhas, quando caminhamos até à Foz, ou quando passamos por Miramar, esse caminho, essa água, cria uma ligação muito importante, e sinto que ficamos mais calmas. É um grande privilégio, porque o rio aqui no Porto faz parte da identidade da cidade.
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O meu sonho é continuar esta resistência na esfera pública e que mais pessoas se juntem e se sintam em casa no nosso grupo. Sentimo-nos seguras juntas, podemos cuidar umas das outras. Acho que, se não tivesse começado o grupo ou conhecido os meus amigos, já não estaria em Portugal. Quando criei o grupo, estava sozinha, mas foi muito importante abrir o grupo e receber apoio de outras pessoas que também queriam ajudar a desenvolvê-lo. Percebi que precisava de ser aberto. É por isso que agora somos um grupo de voluntários, até porque eu não posso, nem devo, representar todas as pessoas negras.

Michele Mara
01/03/1981
Curitiba, Brasil

Sou cantora, licenciada em musicoterapia, compositora, atriz e ativista negra.
Estudei teologia para ser pastora de crianças e de igreja. Fui cantora e regente de coro, enfim, fui criada para ser a pastora sucessora na igreja da minha família. Mas um dia ganhei coragem, decidi mudar a minha vida e entrei no Conservatório de Música de Curitiba para estudar canto popular. Acabei por ser afastada da igreja, porque tinha de escolher: ou cantava na igreja ou cantava para o mundo… Escolhi o mundo.
Estudei musicoterapia na faculdade porque queria tratar de mulheres negras vítimas de violência doméstica e ajudar nos processos de luto, fiz a primeira pesquisa no mundo sobre os sentimentos que as mulheres negras expressam em atividades de musicoterapia.
Não sou uma mulher do movimento negro, mas sou uma mulher negra em movimento… 
(...)
Eu trago a minha ancestralidade, a minha história, a minha vida, a minha arte. Trago a boca aberta para falar, trago o não se calar, a luta por justiça, por reparação, a luta contra a xenofobia, contra o machismo e pela vontade de mudança. Não posso mais ser uma wikipreta, as pessoas têm de se esforçar para aprender, não estamos aqui para ensinar, estamos aqui para combater… 
É isso que eu trago: combate, a luta e a minha vida para ajudar quem quer que seja.
Sou uma mulherista africana assente em três pilares: raça, classe e género, com a mulher no centro de tudo. É o Matriarcado.
(...)
O Porto é muito especial porque aqui (re)começa a minha carreira enquanto artista e empreendedora.
Tinha um monte de brincos e colares feitos com cartão e tecido africano, que comecei a fazer durante a pandemia e que precisava de vender, e foi assim que surgiu a ideia de organizar a primeira Feira de Afroempreendedores no Porto, em 2021. A partir daí fiz novos contactos que me levaram a participar em musicais e integrar a primeira ópera crioula portuguesa, “Adilson”, da autoria do Dino d’ Santiago. 
(...)
Desejo envelhecer com saúde, com qualidade de vida. Continuar a trabalhar e dar condições aos meus filhos, não ficar a contar as moedas no final do mês. Fazer mais teatro musical, talvez cinema, viajar, gravar o meu disco…

Deusa Sebastião
Guiné-Bissau


Sou Deusa, guerreira, lutadora e vencedora!
A minha infância não foi fácil, saí do meu país, a Guiné-Bissau, muito cedo... Passei muita fome, sofri muito… Aos 6 anos fui trabalhar para um senhor no Senegal, vivia como uma escrava, vigiava os bichos do mato para não comerem nem estragarem o que se semeava. Um dia o senhor quis que eu me tornasse sua esposa. Fugi e voltei para casa dos meus pais. Todo aquele sofrimento fez de mim a mulher que sou hoje. Já trabalhei como mecânica, na hotelaria, restauração, limpezas… Agora levanto-me todos os dias às 3h30, às 4h00 estou na rua para apanhar o autocarro, porque entro às 5h00 da manhã no meu trabalho. Tenho orgulho da mulher que sou.
(...)
África está dentro de mim! Eu trouxe um pouco de África para o Porto e comigo trago sempre alegria! A Beleza Africana é o meu lugar seguro no Porto e o fruto do meu esforço ao longo da vida. É salão de cabeleireira onde faço o que mais gosto e onde atendo todos os públicos, porque aqui é para toda a gente! Na Beleza Africana há boa energia e quem entra sai dali feliz, linda, maravilhosa e poderosa! 
(...)
Em janeiro completo quinze anos no Porto, uma caminhada de muito trabalho e luta. 
Carrego comigo as saudades do meu país, mas é aqui que encontro segurança e liberdade de expressão. Aqui tenho espaço para dizer o que penso, para afirmar o que sou e fazer outros felizes.
No Porto caminho sem medo e habito esta cidade com liberdade, sabendo que a minha voz pode existir. 
(...)
Sonho em oferecer aos meus uma vida mais digna, depois de tudo o que atravessaram comigo. 
Como não pude ser mãe, imagino um lugar onde possa acolher quem precisa. Se um dia tivesse forma de o fazer, construiria um lar/orfanato, onde pudesse ajudar os outros e dar-lhes um futuro mais justo.

Abida Hasana
25/06/1993
Rajshahi, Bangladesh

Eu era diferente das meninas da minha idade, talvez por causa disso, não fui tratada com muito carinho. Interessava-me muito por coisas novas e queria explorar o mundo. A minha família era muito conservadora, por isso era muito reprimida. Saí de casa dos meus pais muito jovem para estudar, fiz o curso de Belas Artes na universidade, especializei-me em Cerâmica. Sou mãe de duas crianças e gosto muito da maternidade. Sou uma pessoa que tenta estar consciente de todos os aspetos da nossa vida quotidiana, incluindo a educação, o bem-estar e a situação política. A política ocupa um lugar muito importante na nossa casa, eu e o meu marido temos muitas conversas sobre a situação política, em Portugal, no Bangladesh e no Mundo.
(...)
Tenho vontade e desejo de me envolver mais profundamente na minha comunidade, sobretudo com as mulheres, para que se possam sentir socialmente presentes, ligadas umas às outras e ao mundo que as rodeia. Quero que a participação e a ligação substituam as dificuldades e o isolamento. Trago comigo a ideia de coletividade, caminhos construídos em conjunto de mais integração e menos individualidade. 
(...)
No Porto gosto do silêncio e da calma, diferente do lugar caótico onde vivia no Bangladesh. As pessoas do Porto são amáveis e  comunicativas. Do Porto gosto do sol e do clima, é parecido com o sítio de onde vim. Caminhar pela cidade é um ritual, vou reconhecendo o espaço, o tempo e o lugar onde habito. 
(...)
A língua é o maior entrave da integração sendo que o processo de aprendizagem da língua é imprescindível para uma integração plena. 
Considero que este processo de aprendizagem da língua deveria ser promovido e acompanhado durante mais tempo. Como praticar e onde praticar o português? Este é um dos grandes problemas de integração da comunidade do Bangladesh.
No Bangladesh somos muito reivindicativos e políticos. Aqui, gostava de me aproximar de alguns grupos e movimentos que reivindicam questões sociais e motivar outros a fazê-lo. 
Sonho em ocupar um cargo político em que tenha poder de causar um impacto real na comunidade. Adorava ver-me nessa posição para poder resolver o máximo de problemas possíveis.Porque um líder tem esse poder diferente das pessoas normais, não é?

Marlene Pacheco 
03/01/ 1951
Florianópolis, Brasil

Nasci no circo e aos 7 anos os meus pais decidiram deixar o circo para os filhos poderem estudar. Não havia emprego para o meu pai, por isso a vida era muito difícil. Vivíamos numa barraca, num pedacinho de terreno ocupado. Passámos fome.
Sou professora e nasci para ser professora! Quando me aposentei de administrativa dei aulas até ao dia em que me disseram que já não estava autorizada a lecionar. A escola e os alunos eram a minha alegria e vida!
Foi nesse momento que decidi vir para Portugal com a minha neta, aos 72 anos. Aqui, entrar para a associação Portuando fez-me dar ainda mais atenção aos problemas sociais e ser mais ativa na luta. Atualmente dou aulas de inglês a imigrantes a um preço social. Ser mulher imigrante fez-me mais desperta, mais presente, mais ativa. 
(...)
Tenho uma vontade enorme de participar, de estar presente e de viver intensamente a cidade do Porto. Na Portuando apoio os imigrantes brasileiros que chegam, já em casa, abro espaço para partilhar conhecimento e oferecer as minhas aulas de inglês a um preço social, porque ensinar também é a minha razão de viver. 
(...)
Apaixonei-me pela cidade, pelos transportes públicos, pela oferta cultural, pelas pessoas. Apaixonei-me por tudo! Parecia que me tinham largado no lugar certo, senti-me em casa e segura. As parecenças com Florianópolis fizeram-me sentir uma ligação a este lugar. Aqui e agora, faço o que gosto e moro onde me sinto em casa, mesmo sendo um quarto…
(...)
O arrendamento é um grande desafio para mim e para todos. Atualmente vivo num quarto, o que ganho de reforma quase só cobre o alojamento. 
Preocupa-me a forma desumana como alguns serviços tratam as pessoas, ainda para mais na condição frágil e vulnerável de imigrante. 
(...)
Desejo continuar a minha V.IDA movendo-me pela cidade e aproveitando as oportunidades que ela me dá! Sinto que eu posso ter uma grande IDA! O V é cheio de voltinhas mas depois quando se entra na IIIIIIDA, é aproveitar a viagem.  
Vinda do circo, não podia deixar de participar em algumas iniciativas de teatro aqui no Porto. Ainda quero ganhar o Óscar de Melhor Atriz em 2050. 

Lyudmyla Artysh
08/03/1974
Rivne, Ucrânia

Sou mulher, mãe, esposa e enfermeira.
Escolhi emigrar e vivo no Porto há muitos anos. A maior parte da minha vida construiu-se aqui. Por isso, uma parte de mim já é portuguesa e posso dizer que sou, também, portuense.
Foi neste lugar que aprendi uma empatia mais profunda — uma aprendizagem muito inspirada pelos portugueses. Fundei um centro educativo e cultural ucraniano para apoiar a integração, mas também para preservar aquilo que somos: a nossa língua, a nossa memória e a nossa identidade, partilhadas com quem nos acolhe.
(...)
Quero viver neste território que já sinto como meu. Fui estabelecendo relações e um dos meus projetos é um centro cultural e educativo ucraniano, o Núcleo da Área Metropolitana do Porto da Associação de Ucranianos. Consiste numa escola ucraniana, um grupo folclórico e uma estrutura de apoio na integração de imigrantes e desenvolvimento de competências em língua portuguesa. 
Vivo com a vontade de levar a cultura ucraniana aos portuenses e promover a interação entre a cultura ucraniana e a cultura portuguesa. 
(...)
Acho que finalmente consegui sentir aquela alma de que todos falam, a alma do Porto. Uma alma única, com a sua própria força. Adoro percorrer o centro da cidade, sentir o pulsar das ruas e a abertura das pessoas, a empatia que se revela nos pequenos gestos e olhares atentos. O Parque da Cidade continua a ser o meu lugar preferido.
(...)
Sinto que a língua é o maior desafio enquanto imigrante ucraniano.
Noto que a diferença na forma de enfrentar e resolver as situações do dia-a-dia tem um grande impacto na vida dos imigrantes ucranianos.
(...)
Desejo continuar os meus projetos: apoiar a comunidade ucraniana na sua integração na sociedade portuguesa. Desejo partilhar a nossa cultura, celebrar o nosso folclore e manter viva a identidade que em tempos foi apagada e que nos liga às nossas raízes, mostrando-a com orgulho a quem nos acolhe. 

Daria Yeremenko
02/01/1994
Svitlovodsk, Ucrânia

Nasci numa pequena cidade da Ucrânia: um lugar de luz e de água. Mais tarde, mudei-me para Kyiv. Não foi uma decisão guiada por uma estratégia profissional nem por um objetivo claramente definido. Fui porque alguém importante para mim vivia lá e eu queria estar por perto. Naquele momento, eu não tinha um rumo próprio, e isso também faz parte da minha história.
A saída da Ucrânia não foi uma escolha. Parti no segundo dia da guerra. Levava comigo apenas uma mochila, com as coisas menos adequadas. Estava convencida de que regressaria rapidamente e, por isso, não levei a minha roupa favorita, pensando que apenas se estragaria nos abrigos e durante o percurso.
A minha forma de presença no mundo é a performance. Trabalho como bailarina, coreógrafa e pedagoga. Interessa-me criar situações em que surgem atenção, contacto e ação partilhada.
(…)
Ao Porto levo o movimento como uma forma de agir, de iniciar processos e de entrar em interação. A colaboração e a construção de vínculos com presença real são centrais para mim.
(…)
Quando cheguei ao aeroporto do Porto, um amigo que eu mal conhecia, o Roma, trouxe-me água. Nesse gesto reconheci uma forma estranha de cuidado, mínima e, ao mesmo tempo, máxima.
(…)
A comunicação é o maior desafio que enfrento. Não pela língua enquanto sistema, mas pelos significados, palavras e gestos que transportam códigos que ainda estou a aprender a decifrar. Essa desadequação de ritmos cria, por vezes, uma sensação de distanciamento, como se eu me movesse ao lado, mas não dentro do tempo comum.
(…)
Quero ser agente de movimento. Hoje vejo esse caminho na criação da minha própria companhia de dança, um espaço de trabalho partilhado e de responsabilidade, porque um trabalho deste tipo não existe em isolamento.

Najat Ougali
12/07/1997
Tinghir, Marrocos

Nasci numa aldeia que fica muito próxima do deserto, a minha infância foi simples e feliz, lembro-me de passar o tempo a brincar com os meus amigos e a descobrir o mundo à minha volta. As minhas avós ensinaram-me os costumes e tradições da família e deram-me conselhos para a vida: ser paciente, respeitar os outros, cuidar de mim e da minha saúde e ajudar quem precisa. Em criança sonhava ser médica, mas casei-me aos 18 anos e não consegui continuar a estudar. Saímos de Marrocos à procura de um futuro melhor para nós e para os nossos filhos. 
(...)
No Porto gosto do tempo, da tranquilidade e das oportunidades que encontro na educação e na saúde. Aqui não sinto racismo. 
Os meus vizinhos são prestáveis, atentos, e nos caminhos que percorro todos os dias sou recebida com sorrisos e um “bom dia” que me faz sentir acolhida. 
(...)
Estar longe da minha família deixa saudades  mas a vontade de uma vida mais estável trouxe-me até cá. 
Aqui enfrento alguns desafios: a língua portuguesa ainda é uma barreira, a demora na obtenção da autorização de residência exige paciência e persistência e os problemas relacionados com a crise na habitação acabaram por nos afetar. 
Ainda assim, sigo em frente, com esperança de dias mais seguros e tranquilos.
(...)
No futuro, sonho com uma vida mais estável e com um lar seguro. Desejo que os meus filhos tenham acesso a uma educação de excelência e que cresçam num mundo onde possam viver com dignidade, tranquilidade e paz.

Natalia Matveeva
22/04/1969
Nizhny Novgorod, Rússia

Sou psicóloga, aqui ainda não consigo exercer a minha profissão pois o processo de reconhecimento das minhas habilitações é muito caro e demorado. Dedico-me ao estudo das culturas através da criação de bonecas folclóricas. Estas bonecas existem em todos os povos - são arquétipos e refletem valores universais, independentemente do país ou nacionalidade, guardam histórias e memórias sobre costumes e modos de vida de cada povo.
(...)
Faço bonecas juntamente com a minha amiga ucraniana. Para nós, é uma forma de mostrar que a cultura pode unir pessoas, mesmo quando vêm de países diferentes. Para as comunidades russa e ucraniana, é um sinal de memória e amizade; para os portugueses, é um convite para conhecerem as nossas raízes e o seu valor.
(...)
O que mais gosto nas pessoas portuguesas é que há sempre alguém disposto a ajudar. A beleza da cidade ainda me impressiona. Quando chegámos era Outubro, ainda estava muito sol e ainda via muitas flores, na Rússia já é muito frio nessa altura. Senti-me num conto de Hans Christian Andersen.
(...)
Gostava de continuar a criar projetos culturais que unam as pessoas, de aprofundar o diálogo entre tradições e encontrar novas formas de criatividade conjunta. Quero que as minhas iniciativas ajudem a fortalecer o sentimento de comunidade, abrir novos horizontes e trazer alegria tanto aos portugueses como aos representantes de outras culturas.

Gabriela Barbosa
17/06/1982
Brasil, São Paulo

Sou uma mulher que se apoderou da própria vida. 
Sou a filha mais nova da família e escolhi o caminho de me respeitar e seguir as minhas vontades. 
Estudei Biomedicina, trabalhei anos na indústria farmacêutica, estive noiva… Aos 30 anos percebi que aquilo não era o que eu queria… Hoje faço exatamente aquilo que quero. Valorizo muito a liberdade que tenho para decidir os meus movimentos e as escolhas que me fizeram chegar onde cheguei. Como mulheres, não somos ensinadas a escolhermo-nos a nós mesmas. Para além de praticar esta ideia na minha vida, incentivo outras mulheres a fazê-lo.
(...)
Cheguei ao Porto com 300 euros no bolso, uma mala de 21 kg e confiança. Nunca tinha vivido sozinha, não conhecia ninguém, não tinha com quem contar. Saímos de um ambiente rodeado de pessoas que nos querem bem e de repente estamos num meio em que ninguém sabe quem somos. Fiquei durante 22 dias dentro de um T0 de 15m2, trancada dentro daquela casa, com medo de sair porque não conhecia ninguém e com falta de dinheiro, porque era mês de férias e não tinha um contrato. Aprendi muito com os meus próprios demónios, com os medos que nem sabia que tinha.
(...)
As pessoas do Porto são muito orgulhosas a respeito da própria terra e isso foi uma das primeiras coisas que me chamou a atenção quando passei a viver cá. A história contada pelo monumento da  rotunda da Boavista sempre me trouxe para um lugar paralelo da minha vida como imigrante: a resistência. Assim como o Leão resistiu à invasão da Águia, eu vejo-me também como resistente dentro do espaço no qual sou(somos) vista(s) como “invasora” …
(...)
A Casa Odara é a representação de muitos grupos de pessoas que são consideradas marginalizadas dentro da sociedade. A Arte, quando é feita por esses grupos dissidentes, não é valorizada. Como associação podemos ser um veículo para ajudar quem quer desenvolver ideias e projetos. A Casa Odara impulsiona e vibra a energia para que estejamos todes juntes na luta diária de existência e resistência